sexta-feira, janeiro 16, 2009

A Barbearia

sexta-feira, janeiro 16, 2009
Desde que me conheço por gente (não que isso signifique alguma coisa) o barbeiro Zé sempre cortou meu cabelo. Quando pequeno lembro que minha mãe gostava de ficar rodando comigo por aí, atrás de “alguém que tenha o corte do seu cabelo” dizia ela enquanto entrava em um novo salão. Eu sei que isso parece meio idiota (e realmente é), mas você há de convir comigo que com sete anos e meio não se pode fazer muita coisa além de espernear.
Até que um dia, depois de um desses acessos maternais (admiro-me de não ter crescido complexado), entrei na barbearia do Zé e pela primeira vez não xinguei minha mãe por me tirar da frente da TV na hora do Chaves.
O corte era exatamente o mesmo, igual a todos os outros. Mas o lugar... ah! Esse sim me encantou. Convenci minha mãe que a partir daquele dia, se ela quisesse que eu cortasse o cabelo, teria sempre que me levar na barbearia do Zé, do contrário faria uma greve de fome. Depois de um tempo passei a ir sozinho.
Era uma típica barbearia que ficava no centro do bairro, com um letreiro simples e mal arrumado, não mais que três cadeiras em frente a um espelho e paredes com mofo suficiente pra dar inveja naquele queijo fedorento e de nome esquisito. No rádio nunca tocava nada mais que uma voz e um violão, pois a música mais importante era a sinfonia das tesouras e navalhas, nesse caso a bossa caía muito bem. Mas o que realmente chamava atenção era o barbeiro Zé. Uma figura marcante, com traços tipicamente brasileiros, ou seja, um nariz fino que dizia ter herdado da mãe francesa, olhos negros e cerrados de algum parente índio, uma cabeleira grande como só os italianos têm e branco como só os portugueses sabem ser.
Zé adorava contar suas estórias enquanto dava uma de barítono com o pente na mão. Falava do orgulho de ter servido seu país, de ter sido um pára-quedista de sucesso e que raspava a cabeça dos novatos que entravam no quartel (provavelmente foi nessa época que descobriu a vocação). Interessantes também eram os amigos de Zé que vez em quando apareciam apenas para papear, até porque na maioria deles já não restava muito cabelo (sempre me perguntava o que tantos carecas faziam em uma barbearia), eram aqueles simbólicos coroas que depois de uma tarde jogando damas na praça, saiam à caça de ouvidos jovens para falar dos tempos antigos, com coisas do tipo: “Na minha época eu jogava muita bola” ou “Na sua idade eu tava comendo todas as menininhas” e etc. Sempre achei engraçado como nos lembramos de alguns fatos de maneira totalmente diferente de como realmente aconteceram, talvez seja apenas um dos sintomas da idade explicado psicologicamente. Pra mim é apenas a mente que gosta de se lembrar das coisas da maneira que melhor convém.
Lembro de um italiano que dizia ter vindo pro Brasil refugiado após a guerra e de um brilho diferente que seus olhos iam ganhando enquanto falava. Na época achava que era apenas saudade, hoje acredito que aquele brilho era fruto dos horrores que com certeza seus olhos haviam presenciado.
Depois de muitos anos frequentando a Barbearia do Zé, me dei conta de como todas aquelas conversas à toa me influenciaram, me deram tanto gosto por escrever e moldaram minha percepção e formas de ler o mundo. Infelizmente hoje, durante mais uma visita para tirar o cabelo dos olhos, percebi também algo que acho nunca quis acreditar.
Os olhos de Zé estão mais cerrados que o normal, seus cabelos são poucos e brancos e a pele está cada vez mais flácida. O pente e a tesoura já não se erguem com tanta facilidade e a voz rouca já não consegue contar estórias como antes. Olhei duas figuras no espelho à minha frente, em primeiro plano estava eu, jovem e com muito tempo pela frente. Em segundo plano estava Zé, castigado pelos anos que se passaram e temendo os próximos, de tempo curto e contado. Nesse momento me peguei ditando versos improvisados pro meu próprio reflexo:

“Bendito seja o maldito tempo
Que leva todos os meus amigos
E me deixa sozinho... comigo
Mas ainda assim
Ele é meu mais fiel companheiro
Pois cura minhas feridas,
E me faz esquecer, portanto aprender
Tempo otimista
Que não me envelhece
Me evolui
E naquela última hora apenas em alegria se despede
Zé está cansado”

Entendi então que no grande esquema do tempo, Zé era apenas mais uma dessas pessoas ou coisas que de passagem pela nossa vida, nos marcam de uma maneira que a princípio não percebemos, mas depois nos damos conta de que não seríamos o que somos sem elas. Percebemos como o caos às vezes destrói para construir algo maior.
E saindo da barbearia após lhe dar a gorjeta de costume, olhei para trás e ao ver Zé me acenando, me perguntei: “E agora? Onde vou cortar meu cabelo?”

10 deixaram-se levar pelo caos:

A Flor do Sul disse...

A mão do tempo destrói tudo que toca. Gostei do teu texto...
Voltarei mais vezes.
Abração.

Raphael disse...

Todo mundo tem aquele barbeiro que desde sempre corta o seu cabelo.
Também tive um que já não esta mais por aqui.
Acho que ele não teve um substituto a altura...

Sentimental ♥ disse...

o tempo tem várias faces e a única q me entristece é a q leva pra longe pessoas q nos ajudam a formar nosso caráter...
beijos

Amanda disse...

Puxa Victor, adoro as coisas que você escreve.É muito inusitado conhecer a visão de vida de outras pessoas, e a sua é muito interessante.

Beatriz Paz disse...

Eu andando por esses blogs da vida já encontrei muita besteira escrita, mas você é um dos poucos que conseguem me arrancar um sorriso de satisfação por ter lido o texto todo.
Parabéns, o texto está perfeito.
BEijos!

Felipe Attie disse...

Cara, nunca fui de cortar cabelo fora de casa. Sempre faço por conta própria. MAs imagino o que esteja sentindo. Enfim, a vida continua...

Maligna disse...

Olá...
São muitas as marcas e muitos os momentos marcantes... gostei dos textos... e dos termos "...não morra por ter temido"...
Posso me responsabilizar por várias pessoas que ingressaram no mundo da leitura e escrita, não devo me preocupar, devo? rs
Eu sempre volto...
Um abraço!

Cecília Lima disse...

Obrigada pela visita...
Gostei do texto... Volto com certeza!
Abraço...

Penélope Chiz disse...

concordo com a Maligna! adorei o texto! ;)

Elianara disse...

"Deus cria o homem sonha e a obra nasce"( fernado pessoa)

Parabens!

 
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