segunda-feira, março 02, 2009

Pequeno Conto de um Amor Literalmente Cego

segunda-feira, março 02, 2009
Sem querer soar irônico, mas foi realmente amor a primeira vista. Pelo menos para Renato, já que, Ana havia perdido a visão na infância, graças a uma mãe descuidada e uma panela de óleo quente. Há anos ela tentava um transplante, mas a fila de espera era enorme e as chances de um doador compatível eram cada vez mais remotas. Com o tempo as esperanças diminuíram (já percebeu que a esperança é a última que morre, mas é a primeira a querer se suicidar?).
Renato era um homem de hábitos simples, sem muitos amigos, muito inteligente, mas de um coração tão impulsivo quanto inocente. Um típico sonhador que ainda acreditava em amor.
Os dois se conheceram de maneira comum, não houve nada de especial, se esbarraram no meio de uma avenida no centro e ela precisava de alguém para ajudá-la a atravessar a rua.
O que nenhum dos dois esperava foi o estranho sentimento subindo pela espinha quando os braços se entrelaçaram. Uma sinfonia de dois corações, um frio que de repente tremia as pernas e um calor que esquentava as mãos. As batidas no peito eram marcadas a cada novo passo, em uma sintonia inesperada com a faixa de pedestres. A partir daí os braços não se soltaram mais.
Ele decidiu levá-la a um bar ali perto. Não era grande coisa, mas ele pensou consigo mesmo: “Ora essa, ela cega! Desde que não sinta o horrível cheiro de suor dos ambulantes e não ouça os palavrões dos trocadores de ônibus, está tudo bem.”
Beberam e conversaram a tarde toda. Trocaram telefones, endereço, Orkut e etc. Começaram ali um romance que duraria alguns meses sem maiores problemas.
Depois de algum tempo e declarações de amor de ambas as partes, Renato resolveu pedir Ana em casamento. Ela recusou.
Foi pior que um tapa na cara (todo homem sabe que depois de um chute no saco, nada dói mais que um tapa na cara. Acho que é alguma besteira a ver com o ego).
Ele não entendia o motivo. Em todas as vezes que ensaiou o pedido diante do espelho, isso nunca aconteceu. O final que imaginava era sempre feliz e nem em seus piores pensamentos aquele “não” lhe passou pela cabeça. Ele tentava argumentar e ela dizia:

- Eu te amo. Muito. Mas não quero ser um fardo para você. Minhas chances de voltar a enxergar são mínimas e não vejo futuro para nós se eu continuar desse jeito. Gostaria de poder acordar pela manhã e olhar seu rosto, mas infelizmente acho que isso nunca vai acontecer. Nunca!

- Mas...

Ela permaneceu irredutível. Ele, frustrado, bateu a porta e foi caminhar pela rua. Ficou horas pensando naquela discussão, imaginando e refazendo os lábios da mulher que amava dizendo aquele terrível “não”... “Não!”
Não! Ele não podia aceitar, não ficaria sem a mulher que amava. Correu para casa com aquele único e estúpido pensamento na cabeça. Infelizmente não havia nenhum amigo por perto para fazê-lo mudar de idéia.

Alguns meses já haviam se passado e Ana não teve mais notícias de Renato após aquela discussão.
Ela possuía um misto de preocupação e felicidade, pois não via a hora de encontrá-lo e contar as novidades. Queria lhe contar que naquele mesmo fatídico dia, havia recebido um telefonema, dizendo que surgira um doador inesperado e poderia fazer o transplante pelo qual esperou tantos anos.
A cirurgia havia sido um sucesso. Agora ela podia enxergar o mundo e todas as suas cores, agora ela poderia vê-lo todas as manhãs e lhe amar por inteiro. Agora ela lhe diria sim.

Neste instante alguém bateu à porta. Era Renato.

- Vim lhe pedir novamente em casamento. Sei que você voltou a enxergar e agora não será mais um fardo para mim. Você vai poder me ver todas as manhãs e eu te amarei para sempre, como ninguém nunca amou alguém. Casa comigo?

- Mas... você é cego!?

- Sim. E daí?

- Eu não posso aceitar. Desculpe. Não sabia que você era cego também. Acho que agora que voltei a ver o mundo em toda a sua alegria e perfeição, não conseguiria viver com você. Não posso viver ao lado de alguém que me lembre tanto esta vida de escuridão que quero deixar no passado. Não posso carregar esse fardo. Não posso casar com você.

- Mas...

- Você entende, não?

- Não. Não entendo. Mas será que você pode me fazer apenas um favor?

- Sim, claro.

- Viva a sua vida intensamente. Viaje o máximo que puder, veja todas as maravilhas do mundo e explore todas as suas formas e possibilidades. Aproveite bem os MEUS olhos!

Deu as costas e nunca mais se viram. Literalmente.

34 deixaram-se levar pelo caos:

Maria Inácia Bellico disse...

Puxa! Que história. Me silenciou aqui por um bom tempo. Que amar é este? Sacrifícios e ainda não ser correspondido? Mas no amor vale tudo à pena. Vale?

Essa história me comoveu e fez refletir muita coisa.

Bjim*

Ótima semana para você.

Marcella Castro disse...

Caramba, me pegou de surpresa mesmo!
E sinceramente? Ele a amava, mas ela não o amava. Que espécie de amor é esse? Primeiro ela diz que não quer ser um fardo pra ele. Depois que ela consegue o que queria não quer tê-lo como um fardo. Ora, então ela não o quer de jeito nenhum! Afinal, nem tudo é perfeito nessa vida, é necessário abrir mão de certas coisas para ganhar outras!
Beijo!

Amanda disse...

Taí, bela roupagem pra essa clássica mensagem de corrente! Até o mais do que banal você consegue transformar em coisa boa....parabens

Mandy disse...

Que bom que gostou!
Maripoza te aguarda lá sempre, e estara sempre aqui tbm...
abraços!

Silas disse...

Quando puder, entre nesse site e leia a postagem, os comentários e baixe a entrevista:
http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=5397

Maria Inácia Bellico disse...

Eu sabia que tinha algo errado... Ahhhh se minha tia que vive em Londres soubesse disso viu? Você filmou? Tirou foto? Publicou? Então não aconteceu nadinha rsrsrsrsr

E obrigado viu? A maioria nem olha estes detalhes ou olha e não avisa, agradeço.

Bjim*

:: rita :: disse...

. olha moço... vem vc dizer que gostou do meu blog...! eu que fiquei encantada com o seu! a sua foto da imagem é perfeita... adoro trangressoes... inda que tão sutis!

[paz]

Carol disse...

Obrigada pela visita no meu blog!Tambem gostei muito daqui e voltareei...E sobre o post,ironico como nossos atos podem nos trair neah?!

Silas disse...

eu já vi essa história em algum lugar.

Bruno disse...

Cega maldita!
Muito bem escrito!

Raphael Oliveira disse...

Vai acontecer e não da pra evitar não estamos imunes a nos magoar.
O amor se torna o sentimento mais idiota do mundo quando não se tem reciprocidade.
Sou um grande idiota.
E dos grandes...

Mauro Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Oliveira disse...

Gostei, já tinha ouvido algo parecido. Um ótimo momento para se pensar.
Cega maldita, como disse o Bruno.
Parabéns, voce escreve muito bem.

Maria Inácia Bellico disse...

Te indiquei no selo que consta no meu blog. Estou sendo incômoda (pra não falar chata) não é mesmo? Mas você merece. Adoro tudo aqui, e não estou sendo exagerada não rsrsrsr.

Bjim*

Flavih Jones disse...

História comovente..
AH q vontade de dar uns tapas nessa cega..
Ah q ingrata..

Pior q desse tipo de gnte o mundo está cheio..

Mas a história é linda.
Beijos e bom fds.

Nathália Monte ;D disse...

eu ja tinha visto essa historia..sempre me emociona..
beijO

Diana Valentina disse...

Ai.
Antes de terminar já tinha imaginado o final. Que dor.
Que coisa.
me deixa tonta.
=)
mas gosto daqui.
beijos,

Boo disse...

te linkei!

Nathália disse...

Nossa, que história linda :O Me arrepiei!

Filipe Mantovan disse...

muy bueno hombre!

Sunflower disse...

A literal cobra-cega.


beijas!

Anitha disse...

Obrigada, Vitor! Será sempre bem vindo aos meus segredos...Ah!te visito também! ;)

Naiane disse...

OOOObrigada pela visitinha.
Vou ver consigo devorar o que você escreve.
Vamos que vamos!
;)

Naiane disse...

Ele amou. Ela, não.

Heber disse...

forte a história heim... è como a realidade. Às vezes é dura.

Carolina disse...

É bem verdade que quem ama raramente vê. Acho essa uma das cousas mais inexplicáveis e encantadoras desse sentimento. E é bem verdade, também, que tal verbo, amar, já não é conjugado como ditava a regra: just true. Uma simples história como essa, tirada acredito eu de alguma corrente que já li, você conseguiu transformar em algo a se pensar, e muito.
Parabéns.

Beijo ;*

francinebittencourt disse...

Oi escritor do caos, vim aqui para ler porque tbm adoro seu blog, seus textos são muito bonss, já tem um "quê" de livro. Já tem? Sempre estou por aqui. bj Fran

Roberto Ney disse...

eu já vi um video com uma historia parecida... assim é a vida. às vezes pessoas inesperadas fazem sacrifícios por nós e nem temos a oportunidade de agradecer. o ser humano é encantador e assustador.
grande abraço!
gostei do teu blog viu!

A Flor do Sul disse...

E é melhor que nem se virem mesmo!
Amei a maneira como tu coloca as coisas simples no papel.
Continua assim!
Um abraço.

Mαrinα. disse...

Infelizmente, da parte dela não existiu o amor ... |:

Roberto Ney disse...

no amor só sai perdendo
quem não entrou no seu jogo,
quem nãoardeu em desejo,
quem não entregou o seu corpo...

esse é o amor incondicional: não espera agradecimentos ou reciprocidade, simplesmente se ama...
seja sempre bem vindo ao meu espaço e fico feliz que tenha gostado.
grande abraço(:

Sentimental ♥ disse...

ai, q dor horrível, como ela pode fazer isso???
eu não gosto da ana e acho q falta renatos no mundo, mas tudo bem, nem tudo é do jeito q a gente quer...
beijos

Luana Ferraz disse...

Muito bom.

beijos.

Natalia disse...

Nossa!
muito lindo isso! Faz a gente pensar num monte de coisas... :)

 
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