segunda-feira, junho 17, 2013

Antes do chuveiro‏

segunda-feira, junho 17, 2013
Ficaram ali, parados no tempo, se entre olhando durante alguns instantes. Ela soltou um gemido agudo e suspirou sobre o peito dele como quem deixa o prazer se desprender do corpo. Para ele, aquele som era a melhor sinfonia do mundo.
 

Passou as costas dos dedos sobre o seu rosto e ficou observando a gota de suor que escorria em direção às pintas da bochecha. Ele conhecia cada pinta daquele corpo perfeito e gostava de "brincar" de ligar os pontos entre cada uma. Adquiriu a mania de caminhar com os olhos sobre as curvas daquela pele. Ele achava que a cor dela deveria estar em cada quadro do mundo.
 

Ela rolou com preguiça para o lado e ele mordeu gentilmente seu ombro. Ela tinha um gosto doce que ele não conseguia explicar: era uma mistura de prazer, perfume e sabor que ele pensou que deveria estar em todos os pratos do mundo.  

Em um movimento arrastado ela disse:

- Vou pro banho... 

Ele sorriu com os olhos e ficou admirando ela andar em direção ao chuveiro. No caminho ela parou para ajeitar um dos quadros de bandas de Rock que lotavam o quarto dele. Da cama, ele ficou observando como ela contorcia os dedos dos pés com medo da água fria antes de entrar no chuveiro. Ele achava aquele "sambar" acanhado dentro do Box, mais atraente que qualquer coisa no mundo. 

Ela ligou o chuveiro e, de súbito, ele se deu conta de tudo que estava pensando. Começou a recapitular as memórias até aquele momento. Como se conheceram, quando foi o primeiro beijo, onde foi a primeira transa etc. Percebeu que não havia mais volta e que aquela pele morena já havia ocupado um espaço maior que a sua cama ou o seu quarto. Ela já o havia conquistado por inteiro.

Com os olhos perdidos na direção da luz fraca que passava pela fresta do banheiro, começou a pensar se não era melhor acabar com aquela relação. Ele sempre evitou, sem saber direito o porquê, relacionamentos muito longos. Não deixava nada se estender além da conta de uma vida que ele não sabia se queria. Gostava de se permitir aos egoísmos da vida sozinho, como a cama só pra ele e ninguém mexendo nas suas coisas. 
Mas a cama ficava tão mais interessante com ela nos lençóis... e seu quarto nunca foi tão arrumado. 

Não importa! É melhor resolver isso de uma vez antes que seja tarde, disse a razão.

Eu não me importo! Deixe acontecer ao menos uma vez antes que seja tarde, disse o coração.

Repentinamente ela gritou do chuveiro: 

- Você não vem?

Ele sentou sobre as mãos na beira da cama. Olhou para os lados e para o teto, como se esperasse alguém dar a resposta por ele. Levantou num suspiro preparado para carregar o mundo nas costas e andando em direção ao chuveiro disse: 

- Mas é claro que eu vou...

sexta-feira, maio 17, 2013

Me apaixonei pela minha terapeuta

sexta-feira, maio 17, 2013


"Não sei direito o que aconteceu!" Disse eu,enquanto me ajeitava no sofá da terapeuta e entrava nos detalhes da minha última falsa desilusão. Conforme descrevia os pormenores das minhas traumáticas relações para a Dr.ª Sônia, comecei a recapitular na cabeça os acontecimentos dos meses anteriores e o real motivo de eu estar ali.

Cerca de sete meses atrás, quando a criatura que eu acreditava ser a mulher da minha vida desmanchou a relação de alguns anos, entrei naquele vórtice poético de sexo, drogas e rock n’ roll. Tentava toda noite preencher o vazio que ela deixou, satisfazendo-me com álcool e dois cubos de gelo, por favor. A cama que já não tinha mais o formato do seu corpo, só era desfeita quando os lençóis acusavam mais uma noite efêmera e sem sentido. E o rock n’ roll ficava por conta da música de cada novo bar que eu adentrava. 

Noite dessas, o garçom (provavelmente com pena do estado em que eu me encontrava) me incentivou à procurar um terapeuta. Abro aqui um parêntese: meus melhores conselheiros sempre foram Nietzsche, Schopenhauer e os outros livros que lia desde sempre. Para mim não fazia muito sentido em pagar alguém apenas para me ouvir. Mas, sem nada a perder, aceitei a sugestão e procurei a clínica que o garçom indicou. Foi aí que o maldito destino me apresentou à Dr.ª Sônia. 

Uma morena de curvas perfeitas, cabelos longos que se dividiam nos ombros e quase alcançavam a cintura sinuosa, olhos que me hipnotizavam através daqueles óculos desajeitados e uma boca que me enchia de desejo toda vez que mordia a ponta da caneta antes de começar a escrever. Me apaixonei pela minha terapeuta. 

A partir daí senti vontade de ver Dr.ª Sônia todo dia, mas como a hora da consulta era muito cara, me contentei em visitá-la uma vez por semana (afinal, havia me apaixonado, não ficado rico). Durante os meses que se passaram comecei a inventar estórias de relacionamentos trágicos e mal acabados para contar nas consultas e assim estender minha relação com a Dr.ª. Eu criava as mais loucas situações e as contava como se fossem a mais pura verdade (algumas até eram), passava a semana inteira pensando em novas mentiras para cada vez que a visse. Inventar estórias apenas para contar à minha terapeuta se tornou uma obsessão, mas ela nunca demostrava uma reação que me desse sequer esperança de um romance. 

Hoje resolvi dar um basta nesta situação.

Retornei dos meus pensamentos e repentinamente disse:

- Estou apaixonado por você Dr.ª.

-Como assim? Ela respondeu assustada.

- Preciso confessar que todas estas estórias são uma grande mentira. Eu venho aqui há meses apenas para lhe ver. Estou apaixonado e não consigo mais sustentar estes falsos casos. Quando entrei nesta sala e a vi pela primeira vez, percebi o quão idiota estava sendo procurando um copo cheio para um peito vazio. 

Ela ficou parada me olhando atônita e ainda absorvendo tudo o que eu disse.
"Como alguém pode ser tão louco assim", deveria estar passando em sua cabeça. De repente ela voltou a falar.


- Eu também preciso confessar uma coisa.

- Sim! Diga, por favor.

- Eu não sou a Dr.ª Sônia.

-Hã? O que você quer dizer?

- Eu sou apenas a assistente dela. Na primeira vez que você chegou aqui, estava tão desesperado que me confundiu com a Dr.ª. Eu me identifiquei com a sua história e não tive coragem de desfazer o mal entendido. Acho que acabei me apaixonando por você também.

Recebi aquilo como um soco no estômago. O que foi que aconteceu este tempo todo? Eu estava realmente apaixonado ou foi só mais uma invenção da minha cabeça para esquecer meu antigo afeto? Ainda desnorteado corri para o telefone em cima da mesa de escritório e comecei a discar.

- O que você está fazendo? O telefone tocou do outro lado da sala. 

- Ligando para a minha terapeuta. A Dr.ª Sônia precisa saber disso.




segunda-feira, março 19, 2012

Meu avô sabia das coisas

segunda-feira, março 19, 2012
Foi dia desses que revirando as coisas no meu quarto de adolescente achei uma caixa velha.
Já fazia algum tempo que não voltava ao antigo bairro, à antiga casa e às antigas emoções. Não que houvessem complexos (além dos normais) na minha infância, mas a vida agitada e corrida do mundo adulto me impediu de voltar por muitos anos, até que minha mãe me convenceu a fazer uma visita.
Talvez por um lapso muito estranho de saudade dos meus 15 anos, resolvi arrumar meu velho quarto. Todo cômodo estava intacto desde que o deixei para ir morar sozinho.
Até que revirando em baixo da cama encontrei esta caixa.

¬- Mãnheeeeeeee! Que caixa é essa em baixo da minha cama?

- Não sei. Era do seu avô. Resolvi guardar algumas coisas aí depois que ele morreu.

Abro aqui um parêntese sobre meu avô: era um cara que sabia das coisas.

Um português sábio, nascido no fim da 2ª guerra, um romântico incurável que durante toda a minha infância, me ensinou como ser um homem decente, de bons costumes e tratar bem as mulheres. Passando para mim tudo que ele sabia e formando boa parte do meu caráter. Devo agradecer a ele o complexo de cavalheirismo que desenvolvi ao longo dos anos, bem como algumas decepções nos assuntos do coração.

Fecho aqui o parêntese sobre meu avô.

Abri a caixa e no meio de algumas fotos e cartas encontrei um velho poema, que aparentemente ele havia escrito para alguma namorada. Um flerte a distância que por qualquer motivo, parecia não ter dado certo. Seguia-se assim: 

“Quando a vida passar nos teus olhos
Você vai perceber que o amor
Sempre enxerga além, até bem demais
E só ele importa

Para ter certeza de que vai gostar do que vai ver
Ignore todas as distâncias que puder
O mal do homem nunca foi o medo, somente a preguiça
Corra sempre atrás de quem te atiça

Do beijo diferente que só você sentiu
Do sorriso a mais, que mais ninguém viu
Pelo amor até se vê aquele outro ser
Diferente de todos os outros
Por ser bobo igual a você

E de baixo da sua chuva de alegria
Escrevo essa canção pra te lembrar
E sem querer admitir
Um dia poder te esquecer

Vou ficar com a impressão de amor
De uma bebida cheia de gosto e cheia de teor
Mas quando você desistir
Do seu último copo-abrigo
Eu vou insistir
Pois não sou só seu amigo

E com esse falso giz
Ela apenas me diz
Que quando for
O dia iluminando o mar
Eu vou ser areia fria sem luz, nem luar”

Definitivamente meu avô sabia das coisas...

sexta-feira, novembro 04, 2011

Evento de Lançamento do livro Crônico!

sexta-feira, novembro 04, 2011
Pois bem Senhoras e Senhores, finalmente o Caos está saindo do mundo internêutico e invadindo as páginas dos livros.

Digo isso porque no sábado, dia 12/11 vai rolar o lançamento do livro Crônco! Uma coletânea de crônicas de autores anônimos e adivinhe só? Eu faço parte deste livro com um de meus textos. Portanto se você não tiver nada melhor pra fazer, como arrancar um dente ou ir ao proctologista, vai ser um prazer te ver por lá.

O evento vai ser no Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 - Lapa), entre 18h e 21h. Sábado dia 12/11. E depois, é claro, sempre podemos bebemorar na Lapa.

Apareça! Afinal, o que mais você poderia fazer num sábado à noite? (ironia)
Segue aí o release do livro:
Editora Multifoco lança coletânea de crônicas ilustradas.



Com lançamento previsto para o dia 12 de novembro, a coletânea Crônico! (R$28, Ed. Multifoco, 100 páginas.), organizada pelos escritores Jana Lauxen e Beto Canales em parceria com a Editora Multifoco, reúne a nova safra de cronistas e ilustradores brasileiros.
São, ao total, 18 crônicas e 18 ilustrações, que reúnem o melhor de todo o material recebido durante a seletiva, que buscou, pelos quatro cantos deste Brasil, cronistas e ilustradores dispostos a colocar seus textos e ilustrações na avenida:
- Existem excelentes escritores e ilustradores em nosso país; infelizmente (e injustamente) em sua maioria ainda desconhecidos. Um dos principais objetivos da Editora Multifoco é encontrá-los e publicá-los. Uma forma de colocar leitores em contato com autores que, através dos meios de comunicação convencionais, nunca teriam a oportunidade de conhecer. – diz Jana Lauxen, uma das organizadoras da coletânea.
A obra conta com autores do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, o que, segundo a organizadora da coletânea, só vem a somar no resultado final da obra, que considera pra lá de satisfatório.
- O Brasil é um país imenso, cheio de culturas diferentes e, naturalmente, de realidades e pontos de vista também diferentes. Reunir autores de diversos lugares do Brasil, cada qual com sua visão sobre situações completamente distintas entre si, trazem ao leitor um panorama atualizado da realidade brasileira. Além do que, é muito interessante descobrir o que pensam estes novos escritores que, de uma maneira ou de outra, também estão escrevendo hoje o futuro da literatura no Brasil.
Os textos que compõem a obra discorrem sobre os mais variados assuntos, indo desde literatura, Deus, galinhas, maconha e futebol, até festas, esperas, pêssego, vida e morte – todos retratados também por meio dos quatro ilustradores, que deram traço e forma aos textos que receberam.
O resultado desta miscelânea de autores, ilustrações, textos e temas poderá ser conferido a partir do dia 12 de novembro, data do lançamento da obra, que acontecerá no Rio de Janeiro, no Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 - Lapa), entre 18h e 21h.
Quem não puder comparecer ao lançamento e tiver interesse em adquirir seu exemplar, é só entrar em contato com a editora Multifoco através do telefone 55 21 25071901, ou pelo e-mail jana.lauxen@hotmail.com.
Um livro que, sem dúvidas, sua estante merece guardar.

quinta-feira, agosto 25, 2011

Morte ao Clichê do Destino

quinta-feira, agosto 25, 2011
Antes de mais nada, preciso esclarecer que isto não é um texto. Talvez se encontre mais como um desabafo ou uma constatação. Chame como quiser. A questão é apenas uma: Eu odeio o clichê do destino.
Não entendo o porque de a maioria das pessoas adorarem a ideia de “tudo está escrito” ou “nada é por acaso”. Acredito que estas frases feitas sobre destino, estão muito mais ligadas à preguiça humana, que a qualquer força “sobrenatural” ou coisas do além. Afinal, é muito mais fácil esticar as pernas pro ar e acreditar que tudo está predestinado a acontecer, ao invés de correr atrás do que se quer.
Aliás, o que tem de tão especial nisso? Por exemplo, não gosto desse senso comum que existe por aí, de que não importa o que aconteça, duas pessoas podem estar destinadas a sempre se encontrar. É tão dificil assim de enxergar que, com tantos problemas e acasos permeando a nossa vida, as chances de duas pessoas estarem sempre cruzando seus caminhos são sempre as menores possiveis? E achar que o destino vai resolver isso pra você não é uma ilusão pior ainda? Desculpe, mas a verdade é que as chances contra compreendem facilmente os grãos de areia de uma praia.
Aí você vem me perguntar com aquela voz aguda e irritante: “Mas Seu Escritor do Caos, então como essas coisas acontecem?”
Fácil! Vontade. Desejo. Querer.
Gosto muito mais de acreditar que é o desejo que me governa. A vontade inexplicável de cruzar caminhos antigos é o que sempre me traz de volta. Seja para reencontrar pessoas ou situações, o querer de alguém pelo outro, ás vezes se torna tão forte que passa por cima de todas as barreiras e obstáculos que surgem em ambos os caminhos, e naturalmente eles se cruzam e recruzam.
Agora, com isso em mente, me responda: Escolher uma vida de reencontros em estradas antigas, guiado apenas pela vontade e ignorando todo o vento contra, não torna tudo muito mais especial e único do que se deixar levar pelo destino?
Se sua resposta for sim, mande um grande F***** para o “predeterminado” e deixe as vontades se encontrarem novamente. Fale apenas em nome do desejo. E da mesa do bar ou da esquina, das ruas da Lapa ou do apartamento em Copacabana, encha o peito e grite: MORTE AO CLICHÊ DO DESTINO!

terça-feira, maio 31, 2011

O Escritor de Guardanapos

terça-feira, maio 31, 2011

É sempre assim. Sinto como se estivesse me tornando um clichê de filme independente. Sempre que me decepciono e preciso esquecer alguém, me encontro aqui. Na mesma rua, no mesmo bar, pedindo essa mesma cerveja à este mesmo garçom, que a esta altura já me considera seu melhor cliente. Eu realmente venho muito aqui.

Além da cerveja de sempre, peço também alguns guardanapos extras. Veja bem, gosto de escrever, mas não sou muito bom com as palavras, então escrevo em guardanapos. O guardanapo é a metáfora perfeita das minhas desilusões: práticos e descartáveis. Além do tamanho exato de que preciso, pois como só consigo escrever duas ou três linhas, preencho todo o branco do papel. Geralmente são frases soltas, e aforismos que resumem a ultima “mulher da minha vida” ou o mais recente “dessa vez é ela”, que permeiam a minha cabeça. Tenho centenas desses guardados em casa, para talvez um dia, juntar tudo e escrever um livro. Tá bom, eu admito! Eu nunca vou escrever um livro.  Quem leria esse tipo de coisa?

Estava ali distraído, escrevendo meus desapontamentos e catando alguns guardanapos perdidos no bolso da jaqueta surrada quando ela apareceu. Nunca a vi naquele lugar, mas era linda. Cabelos negros, uma perfeita pele que não sei definir a cor e aquele olhar de quem vai te trucidar caso você seja estúpido suficiente para se apaixonar. É óbvio que me apaixonei na hora. Inesperadamente, ela me olhou por alguns segundos e veio em minha direção. Já estava me preparando para mostrar o relógio, pois uma mulher dessas só falaria comigo para perguntar as horas. Imagine minha surpresa quando ela se aproximou e perguntou o que eu estava escrevendo. Meio sem jeito, respondi:

- São só algumas anotações. Nada demais.

- Dor de cotovelo? Ela disse espiando o guardanapo por cima do meu ombro.

- É mais ou menos isso. Na verdade é sobre o meu ultimo desengano com as mulheres.

- O que aconteceu?

- Como diria Nietzsche, “Não foram as mentiras, mas sim o fato de não acreditar mais nelas que me perturbou”. Logo, a decepção foi inevitável.

- Entendi. Tá afim de mais uma? Sabe com dizem, o melhor amor é sempre o próximo.

Sem entender nada, mas curioso com as intenções dela perguntei:

- Como assim? Você quer ser minha próxima decepção?

- Exatamente! Encare-me apenas como uma mulher de altruísmo meio distorcido. Nós teríamos um caso de algumas semanas, intenso e inesquecível. Mas em pouco tempo eu terminaria tudo dizendo “o problema é comigo e não com você” ou “preciso de mais espaço”. E depois da decepção você voltaria para este bar, apenas com outro rosto para um mesmo problema, mas com certeza já terá esquecido aquela sobre quem escreve nesses guardanapos.

 Fiquei espantado com a sinceridade dela e tentei ir mais afundo na conversa:

- Então você quer que eu simplesmente te entregue meu coração em uma bandeja por algum tempo, só pra depois você enjoar e devolvê-lo?

- Você ainda não entendeu. Eu nunca vou devolver ele pra você. Nossa relação vai ser tão forte, que você vai viver comparando todas as mulheres que conhecer àquela falsa impressão do que tivemos um dia. Você nunca vai conseguir acreditar que alguma delas vai ser melhor que eu. E apenas quando estiver muito mal ou carente, vou te procurar, mantendo assim seu coração sempre comigo e te deixando basicamente com um vazio no peito.

Parecia que cada palavra cortava a minha garganta. Aquela mulher descreveu cada relacionamento que já tive em apenas alguns minutos. Comecei a me perguntar por que eu agia daquela maneira. Será que isso sempre foi parte de mim? Será que faço isso por algum prazer doentio? Será que valeu a pena?

De súbito ela me resgatou dos meus pensamentos dizendo:

- E então? O que acha de me levar em casa?

Vendo a malícia naqueles olhos, respondi com um sorriso meio cínico, e já chamando o garçom disse:

- Tudo bem! Mas antes vou precisar de mais alguns guardanapos.       

quinta-feira, março 03, 2011

Carta de um Louco (para o outro)

quinta-feira, março 03, 2011
Rabisquei essas idiotices no guardanapo do bar. Para mim mesmo.
Você já escreveu para si mesmo? Gostaria de ser um cara comum, que apenas fala sozinho como a maioria das pessoas, mas parece que o universo achou que seria divertido me dar uma esquisitice a mais (como se eu já não tivesse o suficiente). Então, tenho essa mania estranha de escrever para mim mesmo. 

Não é um diário. Não são notas para lembrar-me de algo. São discussões inteiras em que eu argumento comigo mesmo e contesto todas as minhas atitudes. Depois eu coloco o papel em um envelope, escrevo meu nome  no verso, endereço a mim, e fico em casa esperando a carta surgir debaixo da porta. É interessante, pois como os correios da cidade são de uma incompetência tremenda, às vezes as cartas levam semanas para chegar e então me percebo confrontando o “EU” do passado. As opiniões e achismos que eu tinha à apenas alguns dias já não são mais os mesmos, e percebo como continuo repetindo alguns erros e como consegui superar alguns problemas. 
Esse meu outro "EU", ou o meu "OUTRO", até me aconselha dentro destas cartas. Experimente fazer isso qualquer dia. Ou não.

Enfim, em mais um acesso desses, em outra noite no mesmo bar, esperando ela chegar apenas pelo prazer de olhá-la e imaginar como vai a sua vida, peguei a caneta e comecei meus delírios. Achei que seria interessante fazer em versos dessa vez. A última carta que escrevi para mim só tinham xingamentos e garranchos. Não gostei quando recebi. Pensei que se conseguisse rimar algumas frases poderia até escrever um poema. Seria bom receber um poema. Mesmo que fosse de mim mesmo. A coisa deu-se mais ou menos assim:

“Meu caro amigo,
entenda que ela não vê.
Você é apenas o que nunca pareceu ser.
Torça para quando ela voltar, que seja porque esqueceu quem a fez te esquecer.
Todos te avisaram, mas você foi o único que não se disse para desistir.
Agora talvez seja tarde para ser quem você não podia ouvir.
Seu erro sempre foi querer se convencer do que sentia
e não querer saber do que, de verdade, ainda possuía.
Não seja idiota. Não chore pelo o que nunca teve.
Apenas lamente o tempo que perdeu em querer mais um pouco de nada.
Não exija um outro amanhã de quem vive anos atrás.
Não peça um outro dia a quem não te quer mais.
Não esqueça que no sono dela, você a levou para casa, mas quantas vezes ela pediu pra você ficar?
Enquanto isso, no teu sonho, só se passa o que ela nunca pôde te dar.
Não seja idiota.

P.S: Não de novo.”

Quando terminei de escrever, percebi que ela já estava levantando-se da mesa e indo embora. Acho que pela primeira vez em meses não engasguei a minha vontade de falar. Essa vontade simplesmente não existia mais. Não quis impedi-la de sair pela porta. Não me importava mais. Li e reli varias vezes o que acabara de escrever. A carta que mais tarde iria me endereçar como destinatário.
Abri um sorriso e pensei: “Mal posso esperar para receber essa!”

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Porque Não Uso Mais Fones De Ouvido No Ônibus

quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Decidi outro dia desses que não uso mais fones de ouvido no ônibus. Não só no ônibus, mas no metrô, trem ou qualquer outro coletivo desses que rodam por aí. A ideia é simples: você não tem noção das histórias que deixa de ouvir e pessoas que deixa de conversar apenas por estar usando fones de ouvido. Tomei essa nova resolução pra minha vida na ultima vez que encarei o transporte público e esqueci meus fones em casa. A história se deu mais ou menos assim:

Tive a infelicidade de cair em uma daquelas falhas da vida. Aquelas coincidências injustas, sabe? Ou seja, exatamente no seu primeiro dia de folga em meses de trabalho, sua mãe precisa daquele favor irrecusável. O pior é que se você ousar dizer que não pode, ou que está cansado, ela começa a reclamar de como te carregou nove meses na barriga, de como você era problemático e resolve usar toda a sua infância pra fazer chantagem emocional.

Depois da derrota contra minha progenitora (dica: quero ver TV e quero dormir até o meio-dia não são argumentos válidos nessas horas) aceitei minha missão: pegar aquele exame médico de rotina, na clinica mais esquecida por deus do outro lado da cidade. Infelizmente, só percebi que estava sem meus fones de ouvido pra me distrair durante a viagem quando entrei no coletivo, e me deparei com todas aquelas pessoas com “cara de ônibus” (já reparou que todo mundo tem a mesma cara dentro do ônibus? Aquela feição triste e cansada de quem olha pra janela e não vê a hora de chegar em casa, só para no outro dia começar tudo de novo? Então, essa cara.)

A viagem de ida foi perdida nos meus xingamentos próprios, imaginando o que estaria passando na tv àquela hora. Cheguei a clinica, peguei os exames e iniciei minha jornada de volta. Já no ônibus, sentei próximo a janela e comecei a observar. Atrás de mim haviam dois homens discutindo política e soltando algumas pérolas do tipo ”na época do Getúlio não era assim...” e mais a frente um adolescente fingia estar dormindo só para não dar lugar à velhinha em pé na frente dele. Até que ela surgiu! Ainda correndo para pegar o ônibus que já saía do ponto, ela entrou. Linda, morena e perfeita em seu uniforme de atendente de telemarketing. Lançou aquele leve olhar de “com licença” na minha direção e sentou-se ao meu lado. Eu não iria desperdiçar uma oportunidade daquelas. Uma mulher assim não aparece no mesmo ônibus que você todo dia, e afinal, sem os meus fones de ouvido não havia nada melhor pra fazer. Naquele momento comecei a pensar o que poderia dizer para puxar conversa e estupidamente soltei:

— Eu esqueci os meus fones de ouvido em casa hoje. (o que eu tinha na cabeça pra falar aquilo?)

— Hãn?

Percebi que ela não havia entendido nada e comecei a formular uma teoria de improviso:

— Já reparou que hoje em dia as pessoas quase não conversam mais dentro do ônibus? Elas só se preocupam com o seu próprio mundinho e resolvem se trancar nele através de um celular ou um mp3.

— É verdade! É uma pena, pois sempre se pode encontrar gente muito interessante dentro do ônibus.

Fiquei perplexo. Não é que ela realmente entendeu a minha teoria? Continuei a falar:

— Acho que as pessoas estão muito individualistas atualmente. Às vezes nosso próximo melhor amigo pode estar sentado ao nosso lado e nem nos damos conta.

— Ou nosso próximo namorado. Complementou ela, com um sorriso lindo no rosto.

A partir daí começamos a conversar sobre tudo. Trabalho, família, relacionamentos e tudo o mais. Ela reclamava do telemarketing e eu reclamava da minha mãe. Enquanto ela falava, viajava em meus próprios pensamentos (faço muito isso. Acho que sou meio autista). Fiquei imaginando como seria bom me envolver mais com aquela mulher, agradeci aos céus a sorte de estar naquele ônibus, divaguei sobre como seríamos felizes e qual seria o nome do nosso cachorro. Percebi então que estava diante da mulher dos meus sonhos.

Até que de súbito ela levantou e começou a se despedir:

— Tchauzinho! Bom te conhecer.

— Até mais! Foi um prazer te conhecer também. Respondi ainda sobre o efeito dos meus pensamentos.

Foi somente quando ela desceu e deu um ultimo aceno pela janela que percebi o quanto eu era idiota. Esqueci-me de perguntar o nome dela. Fiquei tão perdido nos meus devaneios estúpidos que nem trocamos telefones e agora nunca mais veria aquela atendente de telemarketing novamente. Em apenas alguns segundos ela se tornou a ex-futura mulher da minha vida e eu já começava a sentir saudades do meu ex-futuro cachorro.

Cheguei em casa arrasado, mas quando já começava a aceitar a perda daquela mulher. O telefone tocou. Era ela! Muito mais esperta que eu, ela viu os exames na minha mão, foi até a clinica e conseguiu o meu telefone. Quando atendi ouvi aquela voz maravilhosa dizendo:

— Você ainda esquece os fones de ouvido em casa?

O resto fica pra próxima...
     

quarta-feira, novembro 24, 2010

Não entre na montanha russa

quarta-feira, novembro 24, 2010
Outra madrugada dessas, voltando de mais uma tentativa fracassada de esquecê-la, resolvi voltar andando para casa. Fui me escorando pelos muros da rua enquanto derramava cerveja pela minha jaqueta e resmungava algumas músicas. Até que o momento que me definiria pelo resto da minha vida aconteceu.
Dobrando uma esquina qualquer, passei por um mendigo sentado no chão. Nem repararia no sujeito maltrapilho e misturado à paisagem se ele não tivesse me gritado:

- Não entre na montanha russa!

Normalmente eu faria como a maioria das pessoas, achando que era só mais um coitado esquizofrênico e continuaria meu caminho. Mas ainda não sei bem porque, talvez fosse o álcool, resolvi parar:

- O que disse?

- Não entre na montanha russa!

“O que isso quer dizer?” Perguntei com medo da resposta.

- Quer dizer que eu já estive exatamente onde você está agora. Em pé, de frente para um mendigo maluco, apertando cada vez mais forte a garrafa na mão. Decepcionado com as mulheres. Com uma mulher em particular. E vim parar aqui porque não ouvi aquele maluco. Eu entrei na montanha russa.

Naquele momento gelei. Como ele sabia que eu estava sofrendo por uma mulher? Minha dor seria tão aparente assim? Ainda hesitante pedi que ele explicasse melhor:

- O que é essa montanha russa afinal?

- Imagine, meu amigo, uma grande montanha russa. A mais alta e incrível de todas.

- Estou imaginando. Continue.

- Imagine, meu amigo, que andar nesta montanha russa será a melhor experiência da sua vida. Não há nada igual no mundo. Ah, o vento no rosto trazendo a sensação de liberdade, a adrenalina da subida e a emoção da descida. É excitante e você quer andar cada vez mais.

“Prossiga”. Eu já ficava impaciente.

- Agora, imagine que a montanha russa tem um pequeno problema. No fim de cada volta, você tenta descer e tropeça em um degrau tortuoso. Você cai e se machuca. É inevitável... quantas vezes você andar nesta montanha russa, é quantas vezes você irá tropeçar e se machucar. Uma dor insuportável sempre.
 
- Sim, e daí?

“E daí? Eu é que lhe pergunto:” Disse o mendigo com um sorriso no rosto.

- Sabendo disso... que mesmo sendo a melhor sensação da sua vida fazer tal viagem, e sempre que desembarcar você vai se machucar... você ainda entraria na montanha russa?

Aquela pergunta me atingiu como se fosse um soco no estômago. Senti-me nauseado, me perguntando se aquilo realmente estava acontecendo ou se era o efeito tardio da cerveja. Aquele homem sujo no chão acabara de descrever todas as minhas relações amorosas. Lembrei imediatamente de todas as mulheres que passaram pela minha vida. Lembrei-me dela. De todas as vezes que entrei na maldita montanha russa. Só então percebi o mendigo falando comigo:

- E então? Responda.

Foi então que, ainda absorvendo aquela ideia inquietante que acabara de ser empurrada pelos meus ouvidos adentro, vi meu reflexo na garrafa em minha mão. Toda a angustia do meu rosto reluzia no vidro verde e repentinamente fui reconfortado por uma estranha melancolia. Percebi que toda a dor que eu sentia pelo abandono daquela mulher, era a coisa mais genuína que poderia me acontecer, pois me lembrava, mesmo dolorosamente, de todo o amor que eu senti por aquelas mulheres. Por aquela mulher em especial. Acreditei pela primeira vez que valera a pena. Virei-me para o sujeito no chão e respondi:

- Eu não sou igual a você.

“Como não?” Perguntou surpreso, o homem.

- Você entrou na montanha russa, viveu o amor, caiu e agora esta aí, sentado no chão... certo?

- Certo!

- Pois é. Eu também entrei na montanha russa, mas nunca tive medo de me levantar.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Sweet Sixteen

quinta-feira, outubro 14, 2010
Ah se eles soubessem
das coisas que nem mesmo ela sabe
da teima com a vida que querem lhe empurrar
da coluna e da vontade dividas
das brigas e da constante despedida

Ah se eles soubessem
que não é coisa de momento
as palavras que atropelam o pensamento
do medo do papel que não sabe interpretar
da boca com preguiça de falar

Ah se eles soubessem
da menina gigante por dentro
que faz graça pro vento
mas que chora sem parar

Ah se eles soubessem
dos nossos esquemas
das razões e dos problemas
do motivo do poema

Ah se eles soubessem
do que me faz rir e desejar.
 
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